Ciente de que seus pesadelos estavam espreitando o seu mundo - o entendido como real - não se deixou abalar. Aquelas sombras fazem parte dele mesmo, pois onde há luz, há sombras. Assim foi dito a ele, assim ele absorveu e acredita. Ele foi sombra, antes mesmo de se dar conta de que agora é o oposto. Ele é luz, mas sabe que provoca sombras. Ele é dois. Ele é metade cheio, metade vazio. Ele ouviu ele mesmo falando sobre equilíbrio e constatou que equilíbrio é para quem está na corda bamba. Ele sempre entendeu aquela frase que tinha no livro do americano, apesar da frase fugir-lhe antes de lembrar-se dela. Aqueles mundos feitos de frases. Como se fosse possível resumir complexidades em pequenas frases. Frases são simples por natureza, e por mais que se procure mantê-las juntas para ganharem força, a base ainda será frase, será simples, parcial, meio cheia, meio vazia. A complexidade de tudo, do banal ao significativo, não existe para ser compreendida. Isso existe para ser isso - complexo. Feito para ser desafiado, mesmo sabendo-se que é uma luta perdida. Ele já se aventurou nessa luta, e achou complexo resumi-la em frases, mesmo para si. Preferiu guardar sem saber exatamente o que, assim como fez com aquela frase que tinha no livro do americano. Basta lembrar que fazia sentido, e acreditar que ainda o faça. Aí está, disse ele para si, sua luz na complexidade de tudo e sua sombra na simplicidade das frases. Cada lado sustentando a existência do outro. Mas, apesar de não chegarem a um ponto comum, são comuns em seus limites e em suas essências, pois é nestes dois pontos que acabam sendo incompletos para se fazerem entender. Aí está, novamente, o equilíbrio! Ele então viu que está na corda bamba. Lembrou da vida por um fio. Do fio arrebentado que passa a ser dois. Dois fios e uma queda, nem para um lado nem para o outro. Toda a dualidade do mundo para um só caminho - para baixo, para a queda libertária. As sombras empurradas para a luz e vice-versa. Os pesadelos espreitando o seu mundo e ele ri. Ele e sua mente, pregando peças para se divertir. Jogam luz um contra o outro, provocam sombras, soltam frases - num delírio silencioso e livre, montam seus próprios circos e riem com seus próprios palhaços, exaltam-se com seus próprios equilibristas, domadores, feras! Comandam o mundo, sendo eles mesmos o mestre circense e o respeitável público.
Terça-feira, 9 de Junho de 2009
Domingo, 15 de Fevereiro de 2009
Por Você
Do brilho do sol encontrarei o calor para te prender ao meu abraço. Em águas límpidas e apaziguadoras mergulharei para tirar a suavidade para minhas palavras. Daquelas ventanias tempestuosas que assombram em noites intermináveis trarei fúria para minhas defesas. Nuvens dançando em um palco azul e infinito irão servir-me para distrair-te e arrancar seus risos, seus prantos, suas mais simples e pequenas emoções. Quero delas saborear, compartilhar. Sob a lua, tolamente apontar estrelas, desejar eternidade. Tolamente ser tolo ao seu lado. Sua pele com a minha delirar. Deixarei seus olhos me engolirem para na sua alma me aninhar. O prazer ter, ser e enlouquecer. Sob a lua, entre as nuvens, ter você, ser você e enlouquecer por você.
Asco
Nos contornos dos longos discursos que nada concluem e que parecem isentos de um fim. Nas insanidades ditas às multidões sedentas por defender causas absurdas. Nestas causas absurdas que alimentam multidões semimoribundas. Nunca houve uma seta indicando a salvação para evitar os abismos trágicos e assassinos. Cegos guiados por mentirosos cegos, ditos espertos, ditos reis. Seus próprios egoísmos puxam e empurram suas medíocres vidas, para chegar - nada mais, nada menos - que ao ponto de partida. Seres de razão decepada, alheios ao próprio destino, envoltos em um emaranhado de interesses fúteis e improdutivos. Perpetuam idéias, loucuras! Que depois de ditas e grafadas não há como prendê-las. Terão vida, alimentarão ignorantes, serão fartura para os imbecis que nada tem de dignidade. Desvirtuem tudo, deêm outras formas tão pequenas quanto a que engoliram. É hora de deixarem-se adormecer, para que a paz desperte ao menos uma vez!
Não.
Não queira saber por onde andei. Nem das palavras que proferi. Nem de pessoas que conheci. Nem dos momentos que guardei para mim. Não queira me dar conselhos. Nem tente encontrar motivos. Nem procure teorias. Não explique-se, nem explique-me. Nossos universos se encontraram e transbordaram. Meus pensamentos, nem tente sabê-los. Feche seus olhos e sinta-me desaparecer, abra-os somente quando quiseres novamente viver.
Domingo, 21 de Setembro de 2008
Caminhada
Com as mãos nos bolsos aspirou o ar fresco e quase frio, erguendo os olhos para o céu noturno, que escuro e cheio de nuvens ocultava as estrelas. Pena. Terminado o longo suspiro, deixou os pensamentos de lado e largou o olhar nas próprias sombras, que entre um poste e outro se esticavam e desapareciam, em sincronia com o som dos passos ecoados e perdidos pela rua deserta. Andava no meio da ruela, despreocupada com si e sorrindo por sentir o ar entrando pelas narinas. Era apenas uma caminhada sem motivo específico, sem destino... Talvez só para ver um cachorro dormindo, carros estacionados, luzes, janelas iluminadas que lembram telas em que vidas podem ser filmes. Tirou uma mão do bolso e deixou que algumas folhas de um jardim roçassem nela, arrancando uma folha antes de um muro salpicado de cimento cortasse o encanto. Amassou a folha, umedecendo os dedos e pôs a folha triturada próximo do nariz para sentir o cheiro do verde, temperando a brisa. Fechou os olhos para dar mais um longo e pacífico suspiro. Então veio a leve garoa, e com ela passos mais lentos. Gotas pequeninas e suaves tocavam seu rosto, suas pálpebras. Ela procurava sentir cada uma delas. As palmas das mãos já abertas e pendentes ao lado do corpo queriam mais do que aquilo, e sem pressa esperavam o que alguns trovões anunciavam: uma chuva torrencial que em poucos segundos encharcou suas roupas, seus cabelos, sua alma... Acendendo ainda mais a sensação de vida que ela já estava sentindo. Ela deixou que essa energia se espalhasse por tudo como as nuvens estavam espalhando a água... Quando se deu conta de que seus passos não eram mais ouvidos, a não ser quando pisava em grandes poças que enchiam seus sapatos de água. Parou em frente de uma casa que tinha o portão aberto. Observou que de tão fraca a luz da varanda, ela quase era apagada pela espessura da chuva. Olhou para o chão e percebeu que a casa era cercada por grama, que já estava encharcada. Sem vacilar, deitou-se e permitiu que as sensações a levassem, os sons que entravam em seus ouvidos eram a paz. A grama se reorganizando debaixo da sua cabeça, a água sendo absorvida pelas roupas e entrando em contato com a pele, a chuva tocando todo seu rosto... Então ela se tornou complemento e sua consciência o universo. Dissolvida pela tranquilidade, desapareceu com a água quando o sol surgiu para secar a rua, para fortalecer a grama, aquecer os muros e apagar a fraca luz da varanda. E o mundo continuou... E novas chuvas virão para libertar novos sonhadores.
Sexta-feira, 8 de Agosto de 2008
O Que Excita Você?
O mundo não excita você? De todas as formas ou de apenas uma? A complexidade das coisas, esse intrincado sistema "caótico ordenado" é um espetáculo gratuito a qualquer um! Desfrute da oportunidade de contemplar. Se você fechar os olhos agora, consegue visualizar o que teus olhos captam todos os dias no exato instante em que se abrem? Detalhes que passam batido são quase assassinatos. Por trás de um simples feixe de luz, que por acaso consegue furar o bloqueio da tua janela em uma manhã, existe uma grandiosidade de causa e efeito que pode ser a dose perfeita para garantir um início de realização para você usufruir durante todo o dia. Quantos movimentos automáticos e frios nós fazemos sem nos darmos conta? Absolutamente tudo foi feito com alguma paixão incorporada, algum prazer em algum momento incitou pessoas a criar, aperfeiçoar, difundir. Olhe cada objeto próximo de você agora, tente imaginar, um mínimo que seja, do que já aconteceu até eles chegarem aí do seu lado. Desde as circunstâncias que deram chance para a formação de uma idéia até o momento em que isso se tornou uma necessidade para você. Quantas vidas envolvidas entre um ponto e outro? Quantas paixões, desejos, necessidades existiram? Existe uma carência de consciência e respeito pelo que temos em nossas mãos. Vemos homens e mulheres, seres conscientes, arrastarem-se numa existência morna em buscas eternas de felicidades alinhadas, perfeitas, que só existem dentro de seus delírios, quando a simples ação de parar e contemplar pode trazer um sentimento de pura satisfação, uma percepção tola que pode desencadear novas formas de ver seu próprio quarto. Ainda que aqui eu fiquei apenas nas criações humanas! Da natureza nem me atrevo a entrar em detalhes, mas um simples e cotidiano nascer do sol visto e sempre lembrado, pode garantir boas doses de pura satisfação. O sol nasce todos os dias, ele dá espetáculos todas as manhãs e fim de tardes, sem saber se você se importa ou não. Mas quando você está preso num trânsito cinza, barulhento, lembrar de cada detalhe do movimento daquele nascer do sol, é fantástica a transformação. Em lugares menos agressivos, a cadeira que você estiver sentado pode render o mesmo sentimento, depende dos seus interesses e do que te motiva a fritar neurônios numa busca de lenha para manter acesa a excitação de viver sempre satisfeito.
Mas o mais provável é que eu seja um maluco que ensinaram a escrever... uahuhauhuha!!!
Mas o mais provável é que eu seja um maluco que ensinaram a escrever... uahuhauhuha!!!
Quarta-feira, 16 de Julho de 2008
Morte
A palavra proibida! A que causa arrepios nos medrosos, a dor nos que amam, provoca sinais da cruz na testa dos devotos, acende a excitação no suicida - e comum a todos, o silêncio. Eu ando de mãos dadas com a morte. E sinto que cruzo uma linha vermelha com essa pequena afirmação, quase vendo a careta da maioria que chegou até aqui. Mas sempre há quem simpatize. É óbvio que também ando de mãos dadas com a vida. Poderia aqui dizer que a morte é obscura, oculta, uma sombra espreitando, aguardando uma chance de surpreender - mas isto para mim seria mentir. Ela é exibida, ela está com nós o tempo todo, no entanto os temerosos a pintam cruel. Ela atravessa a rua comigo, ela viaja comigo, ela está na minha comida. E faz tudo isso exatamente como a vida faz. Não me tachem de negativista (ou o que for), por ter uma visão focada na morte assim como na vida. Acredito que pensar na morte é apenas mais uma das muitas maneiras de se envolver ainda mais com a vida, assim como dar à vida uma importância extra. A morte é triste, mas a vida também o é quando quer. E há aquele grande mistério que envolve a morte, que prende a atenção da nossa raça. Aqui entra também o deslumbramento com as diversas crenças que ao homem é impossível evitar, onde muitas vezes ele está apenas atrás de um amparo para o medo que a inquietante dama negra provoca. E entre um rabisco e outro destas divagações alguém sonha com a minha morte! Todos juntos agora: “Uhhhhhhhh...”. E já que é para escandalizar, eis: eu não ficaria triste com minha morte, mas ficaria triste pela tristeza que a minha morte causaria a quem me é próximo. E não confunda esta não-tristeza - que não significa alegria - com desejo de morrer. Isto é apenas uma aceitação do que é claramente inevitável. E discorrer um pouco sobre ela não mata. Ou mata? “Uhhhhhhh...”
Quinta-feira, 10 de Julho de 2008
Ausências
Onde está a loucura?
Oculta, entre fendas escuras?
Ou tão encravada que se tornou inócua?
Imperceptível, incapaz, fugaz...
Onde está a paixão?
O sangue quente, aquela ânsia!
As angústias da distância,
Os tremores do ápice do reencontro...
Onde estão os gostos?
Os sabores ainda desconhecidos?
Os delírios agora adormecidos!
Sem cor, sabor, odor...
Onde estão teus sonhos?
Onde estão teus pés?
Pregados no chão e
Sufocados pela Razão?
Oculta, entre fendas escuras?
Ou tão encravada que se tornou inócua?
Imperceptível, incapaz, fugaz...
Onde está a paixão?
O sangue quente, aquela ânsia!
As angústias da distância,
Os tremores do ápice do reencontro...
Onde estão os gostos?
Os sabores ainda desconhecidos?
Os delírios agora adormecidos!
Sem cor, sabor, odor...
Onde estão teus sonhos?
Onde estão teus pés?
Pregados no chão e
Sufocados pela Razão?
Sábado, 24 de Maio de 2008
Terra
Algumas vezes tão dura que raízes centenárias rompem à força o solo, não mais permanecendo ocultas aos olhos estranhos. Marcada tantas vezes por garras felinas, que ali deixaram suas patas grafadas na lama, grandes sulcos nesta terra que já fora encharcada. Quero que minhas mãos também abram caminho até teu coração, para que eu alcance um ínfimo que seja do teu conhecimento. Que tua poeira me cubra os poros, infiltre-se em meu sangue e consuma meus fracos instintos humanos e viciados. Transmuta minha ignorância em sapiência. Quero ser pleno como és, quero saber contemplar-te e ouvir-te para que meu respeito por tua grandeza se desenvolva. Que o teu barro, que cobre o caminho pelo qual me atrevo seguir, não me seja escorregadio, traiçoeiro. Que meus olhos cerrados confiem em meus pés descalços. Que meus pés lhe sejam gentis da mesma maneira que sou contigo. Abra-te e permita-me mergulhar para saber toda tua força e teus segredos...
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